Entrevista ao Ex-Sedentário José Guimarães

Correr o UTMB é um dos grandes objetivos de quase todos os atletas de Trail e em alguns casos, como no meu, até foi a motivação para começar a correr Trail.

O José Guimarães, autor do blog De Sedentário a Maratonista fez este ano essa prova, mítica para todos os atletas do Trail.

Logo após a conclusão deste desafio lancei-lhe outro desafio: o de dar o seu testemunho sobre a sua caminhada até aqui, ao que ele prontamente respondeu de forma positiva.

O José já fez o relato da sua prova UTMB e por isso as minhas questões vão ser focadas na preparação.

Questões:

“…instintos que pareciam estar como que adormecidos dentro de mim…”

Luís: Quando é que decidiste ir ao Mont Blanc e o que te levou a fazê-lo?

José: Não me recordo do momento exato, mas lembro-me bem das primeiras imagens e vídeos que vi sobre a prova há cerca de 3 anos atrás me terem despertado imediatamente instintos que pareciam estar como que adormecidos dentro de mim. Aliás, esse apelo foi logo uma das primeiras coisas que senti quando pela primeira vez participei numa prova de trail running: o Grande Trail da Serra d’Arga, organizado pelo Carlos Sá. Estávamos na altura em 2011.

“…Uma prova desta natureza é, por si só, um grande obstáculo…”

Luís: Quais foram os principais obstáculos que enfrentaste para atingir este objetivo?

José: Uma prova desta natureza é, por si só, um grande obstáculo. Concluí-la representou o culminar de todo um processo, no qual tive que aprender como ultrapassar alguns obstáculos intermédios, principalmente os de natureza financeira. Logo de início temos a inscrição na prova que, além de ser mais elevada do que os valores que estamos habituados a pagar, obriga a que nos qualifiquemos previamente, através da participação noutras provas pontuáveis para o UTMB (isto validará a nossa aptidão para esta última). Depois há toda a questão do equipamento adequado (que tem de obedecer aos requisitos mínimos exigidos pela organização do UTMB) e da logística: viagem, estadia, alimentação adequada, etc. Para piorar esta questão financeira, a falta de um emprego estável impossibilitou-me um planeamento estável destas despesas, o que traz uma acrescida carga de stress a um dia-a-dia já de si preenchido. Fisicamente ainda tive um azar no percurso, pois entre setembro de 2013 e os primeiros meses de 2014 estive impedido de correr por causa de uma lesão no pé, chamada fasceíte plantar.

“…tive sempre o apoio daqueles que me são mais próximos…”

 

ex-sedentario UTMB

Foto by https://www.facebook.com/DeSedentarioaMaratonista

Luís: E como é que conseguiste ultrapassar esses obstáculos?

José: Na verdade não me posso queixar, pois tive muitas ajudas a todo o nível. Desde o treino funcional, às sessões de Pilates, passando pelo tratamento da minha lesão, ou mesmo por algum do equipamento que usei, conheci inúmeras pessoas que, além de excelentes profissionais, são Seres humanos ímpares que me deram a mão e me ajudaram a chegar a este patamar. E – muito importante – tive sempre o apoio daqueles que me são mais próximos. Um desafio deste calibre só é possível de ser conquistado quando temos alguém connosco que compreende a essência do que fazemos e partilha das nossas escolhas, mesmo que essas escolhas não sejam a favor de tempo em comum, mas recaiam muitas vezes em tempo de treino. No “final do dia”, esse apoio de coração faz toda a diferença e até cura lesões graves.

“….Há que saber encontrar o equilíbrio…”

Luís: Quais são as principais diferenças que notas em ti, entre o momento em que traçaste o objetivo de ir ao UTMB e o momento em que o terminaste?

José: Talvez as mesmas diferenças que senti em mim, entre o momento em que tracei o objetivo de fazer uma maratona e o momento em que a terminei. Traçar objetivos e planear metas itermédias para os alcançar é, a meu ver, a forma mais correta de se viver a vida, não só nas corridas mas também fora delas. Contudo, nem nos podemos tornar obssessivos com isso, nem nos podemos sentir desiludidos quando, por algum motivo, não os conseguimos atingir. Há que saber encontrar o equilíbrio entre uma coisa e outra. Não conseguir alguma coisa fará sempre parte do nosso Caminho, assim como consegui-la. Acho que esta foi a melhor lição que posso tirar depois desta etapa.

“…nunca deixem de tentar atingir os vossos sonhos…”

 

de sedentario a maratonista no UTMB

Foto by https://www.facebook.com/DeSedentarioaMaratonista

Luís: Que mensagem queres deixar a quem se está a iniciar no Trail e quer um dia correr o UTMB?

José: Que nunca deixem de tentar atingir os vossos sonhos, sejam eles quais forem, digam o que vos disserem. Que treinem muito e da forma mais adequada (desnível e volume, esqueçam a estrada) para lá chegar, porque se forem bem preparados, garanto-vos que vão viver uma experiência única na vossa vida. Se gostam de trail running, não devem deixar nunca de fazer uma prova como estas, pois é realmente um acontecimento único. Mas seja o UTMB ou outra coisa qualquer, o importante é que tenha significado para vocês. Isso é o mais importante na vida. Encontrem o vosso desafio pessoal. Procurem fazer as coisas que vos façam vibrar. Se não o fizerem para vós próprios, nunca se sentirão completos. E se quiserem ajuda, digam alguma coisa, terei todo o prazer em ajudar, naquilo que me for possível.

Obrigado!

Mais uma vez, quero agradecer ao Zé a pronta disponibilidade e dar-lhe os  parabéns pela concretização de um objetivo tão grande como este.

Ele é também responsável por ter tirado muita gente do sofá! :)

Podem encontrá-lo no Twitter ou no Facebook.

 

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